O HOMENAGEADO
“...o acordeon encerra em sua forma flexível o universo. Cheio de teclas e botões é um ser ambíguo, senhor de múltiplas naturezas. Pesado, mantém-se grudado no peito do músico por meio de correias de modo a garantir-lhes as mãos livres para melhor apertar as teclas e os botões simultaneamente. A mão direita de Sivuca, por exemplo, mestre deste instrumento e da vida, toca a melodia nas teclas, enquanto a esquerda, totêmica e ágil, pressiona os botões”.
Nélida Piñon
O que dizer de um músico que recebeu palavras tão poéticas quanto bonitas de ninguém menos que a acadêmica Nélida Piñon... Ele é Sivuca, que quando saiu de Itabaiana, na Paraíba, onde nasceu em maio de 1930, era conhecido por Severino Dias de Oliveira. Aos 76 anos, Sivuca é um dos mais talentosos músicos em atividade no mundo, sendo inquestionável sua contribuição para o enriquecimento da música brasileira e reconhecido nacional e internacionalmente como instrumentista, arranjador, compositor e produtor.
É ele o homenageado da próxima edição do Festival Jazz & Blues de Guaramiranga e Fortaleza. Mas ele toca jazz ou blues? Toca muito mais que isso, toca uma música instrumental universal, com suas raízes em ritmos como o choro, o frevo, o forró nordestino.
Aos nove anos de idade, quando ganhou do pai a primeira sanfona, já animava casamentos e festas pelo interior. Aos 15 entrou para a Rádio Clube de Pernambuco, onde tocou durante três anos, já com o nome artístico de Sivuca. apresentando, entre outras músicas, “Tico-Tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu, música que gravaria, anos depois, em seu primeiro disco.
Estudou harmonia com o maestro Guerra-Peixe durante três anos e foi parar em São Paulo pelas mãos da cantora Carmélia Alves. Seu primeiro LP lançou em 1950 em parceria com Humberto Teixeira, tendo entre as composições, “Fogo Pagô” e "Adeus, Maria Fulô", que nos anos 60 foi regravado numa versão psicodélica pelos Mutantes.
Em Recife permaneceu até 1955, período em que fez trilhas sonoras para novelas da Rádio Jornal do Commercio e lançou outros discos pela Continental. De 1955 a 1958 tocou na Rádio Tupi e na recém-fundada TV Tupi, época em que compôs, fez arranjos, gravou trilhas sonoras para dois filmes de Roberto Farias, e lançou mais três LPs.
Em 1958 fez sua primeira temporada na Europa, com o grupo Os Brasileiros, apresentando-se no Olímpia, de Paris. Em Lisboa e na capital francesa morou entre 1960 e 1964. Em Portugal produziu o primeiro disco de música angolana, “Africaníssimo” (Sivuca/Duo Ouro Negro). Na França, foram mais dois álbuns, e o prêmio de músico do ano concedido pela imprensa francesa.
Em 1965, já nos Estados Unidos, passou a integrar como instrumentista e diretor musical, o grupo de Miriam Makeba, famosa pela gravação de “Pata Pata”, com arranjo de Sivuca. Com ela tocou na África, Europa e Ásia. Em 1971, é convidado como arranjador e instrumentista para um especial com Julie Andrews e Harry Belafonte na TV NBC, em Los Angeles. Toca violão/sanfona, faz vários arranjos para orquestra de cordas e em parceria com o compositor/arranjador Nelson Riddle escreve a quatro mãos um outro arranjo de uma canção escrita para Julie Andrews homenagear Vincent van Gogh.
Foram mais de dez anos acompanhando músicos de todas as vertentes e dirigindo musicais nos EUA.
De volta ao Brasil realizou dezenas de turnês por todo o território nacional; gravou diversos especiais para TV; ganhou vários prêmios como arranjador, compositor e instrumentista; participou de festivais de diversos estilos musicais; fez arranjos para dezenas de cantores brasileiros; e gravou trilhas sonoras para filmes.
Em 1985, escreve sua primeira peça sinfônica, o Concerto Sinfônico Para Asa Branca, para uma apresentação com a Orquestra Sinfônica do Recife, no Teatro Santa Isabel. Durante anos aprimora-se nessa escrita, criando, arranjando e orquestrando sete peças sinfônicas.
Em 2006 escreveu mais duas partituras sinfônicas, foi indicado para o Prêmio Nacional Jorge Amado de Literatura e Arte e ganhou o Prêmio Tim de Música como melhor solista, com o CD Sivuca Sinfônico (Biscoito Fino). No início de novembro foi agraciado com o Ordem ao Mérito Cultural, do Ministério da Cultura.
O Poeta do Som (Kuarup) é o título do DVD onde se registra o seu mais recente trabalho, gravado em julho de 2005, no Teatro Santa Rosa, com o repertório e os grupos do CD Terra Esperança, mais a Orquestra Sinfônica da Paraíba e a compositora Glória Gadelha - idealizadora e diretora musical destes dois últimos trabalhos. Importantes registros que comprovam a polivalência, o talento e a sensibilidade deste profundo músico popular/erudito, que transita pela natureza de todos os instrumentos e modalidades musicais, do clássico ao forró, passando pelo jazz, com a naturalidade e a consciência de um verdadeiro Mestre.
Sivuca é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Paraíba, titulo recebido em 1999.
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